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Artigos Reportagens São Tomé rogai pelo Globo
Domingo, 13 Fevereiro 2005 02:45

São Tomé rogai pelo Globo

Escrito por 

“Jornalismo é a profissão cujo trabalho consiste em explicar aos outros aquilo que pessoalmente não se compreendeu”
(Lord Northcliffe)

O jornal O Globo precisa urgentemente encomendar uma missa a São Tomé, o santo protetor contra as dúvidas. A matéria “Hiperatividade: isto explica tudo?” da Revista de Domingo de 13 de fevereiro conseguiu veicular uma mistura de opiniões as mais variadas, algumas delas beirando o absurdo, confundindo o leitor que deveria ser informado sobre um transtorno grave.

Excetuando-se casos específicos, como a BBC inglesa que tem cerca de 300 jornalistas apenas para assuntos da área de saúde, em geral o profissional tem que preparar matérias sobre os mais diferentes assuntos, desde os mais simples até os mais complexos. Além disso, normalmente eles têm que cumprir prazos exíguos para entregar a pauta. Como uma das regras básicas do jornalismo é contemplar todos os pontos de vista, os jornalistas procuram entrevistar diferentes profissionais.

Começam então os problemas. Uma boa parte dos jornalistas acaba por entrevistar numa mesma matéria desde pesquisadores sérios cujas pesquisas são publicadas em revistas internacionais até indivíduos que emitem opiniões próprias que não são fundamentadas em qualquer tipo de estudo científico. Qual a relevância de suas opiniões? Nenhuma. Foi-se o tempo em que profissionais (sejam eles médicos, psicólogos ou quaisquer outros) emitiam opiniões na base do “achismo”, na sua “opinião pessoal”.

Infelizmente, ainda temos jornalistas que não tiveram formação científica suficiente para valorizar a medicina baseada em evidências, ou seja, aquilo que teve demonstração em pesquisas publicadas em revistas especializadas. A “opinião” de alguns dos entrevistados que afirmaram que “o TDAH é a tentativa de usar um rótulo para crianças peraltas” e “é fruto do relacionamento da criança e seus pais” são fundamentadas em alguma pesquisa? Onde foram publicadas? Os entrevistados fazem parte de um grupo de pesquisa? Quais as suas publicações que são mencionadas em documentos oficiais, consensos internacionais, etc? A resposta é: suas opiniões são puramente “achismo”. Nenhum deles jamais participou de qualquer pesquisa e nunca publicaram um único artigo em revista científica sobre o assunto. Porque foram entrevistados, é um mistério...

O Professor Wagner Gattaz, Titular da Psiquiatria da USP ensina: antes de levar em consideração uma opinião publicada, procure saber quem é o entrevistado. Todo pesquisador tem obrigatoriamente seu currículo no sítio da CAPES (www.capes.org.br). Também é possível verificar dados sobre o entrevistado em www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi, sítio da National Library of Medicine. É possível conhecer seus artigos entrando no sítio de busca PubMed, na internet (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi).

Saber se a opinião de um entrevistado tem fundamento científico ou se baseia na praga do “achismo” que assola o país é bem fácil, portanto. Também ajudaria bastante se os jornalistas soubessem a diferença entre fama e mérito.

O jornalista precisa de uma matéria que traga “algo de especial”, “diferente” ou ainda, na linguagem deles, que “seja notícia”. Desta forma, é comum vermos uma tendência a enfatizar aspectos que causem comoção, surpresa ou até mesmo indignação. Aqueles que gostam de “atacar” a mídia, costumam dizer que os jornais deixaram de vender informação para vender audiência para os anunciantes, que pagam muito caro pelo serviço (e sustentam todos na empresa). Ou ainda, que “notícia é aquilo que existe entre os anúncios”.

A ABDA forneceu para a reportagem em questão inúmeras referências bibliográficas por escrito e explicou detalhadamente os resultados de várias pesquisas científicas sobre o TDAH:

  1. Ele tem forte componente genético e é um distúrbio neurobiológico, não psicológico. Existem 12 pesquisas com gêmeos (comparando univitelinos com bivitelinos) demonstrando o fator genético e mais de 100 pesquisas com exames de neuroimagem (ressonância magnética, etc) mostrando alterações cerebrais.
  2. No maior estudo científico já realizado no mundo comparando Metilfenidato (a substância da Ritalina e do Concerta) a outras formas de tratamento, incluindo psicoterapia, ficou evidente a maior eficácia do medicamento. Este estudo – denominado MTA – foi coordenado por um psicólogo (Peter Jenssen).
  3. Não existe superprescrição de medicamentos para tratamento do TDAH de acordo com pesquisas realizadas nos EUA, Noruega, Israel e Austrália (total de 7 pesquisas publicadas).
  4. Crianças e Adolescentes com TDAH têm mais repetências, suspensões e expulsões, menos anos completados de escola, maior incidência de acidentes e maior incidência de uso de drogas. São pelo menos 20 estudos científicos diferentes demonstrando isto.

 

A midia pode contemplar todas as opiniões que julgar relevantes (ou necessárias) para falar de beleza, decoração ou moda. Mas para abordar um transtorno que acomete 1 em cada 20 crianças e que se associa a mau prognóstico, é inaceitável que as matérias não sejam baseadas em ciência.

Pensando melhor, talvez seja mais produtivo o Globo encomendar uma missa para São Francisco de Sales (dos surdos) e Santa Odília (dos cegos).

 

Paulo Mattos
Vice-Presidente da ABDA
Professor da UFRJ

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