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Artigos Reportagens Desatenção e hiperatividade afetam muitas crianças
Sábado, 07 Agosto 2004 17:28

Desatenção e hiperatividade afetam muitas crianças

Escrito por  ABDA

O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, que responde pela sigla TDAH, poderia ser considerado uma nuance do comportamento de crianças e adolescentes um pouco mais complicada. Mas o que poderia parecer rebeldia ou falta de interesse foi identificado, há quase um século, como transtorno provocado por uma anomalia no desenvolvimento de algumas áreas cerebrais. O fato é que a doença vem sendo cada vez mais estudada e, por isso, mais conhecida pelos especialistas que já possuem tratamento específico para cada um dos casos.

Durante a entrevista feita com o professor de psiquiatria da infância e da adolescência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Luiz Augusto Paim Rohde, alguns mitos sobre a doença foram desvendados e outros equívocos desfeitos. O especialista - que coordena o Programa de Déficit de Atenção/Hiperatividade do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

ABDA - Existe mais de um tipo de TDAH?

LUIZ AUGUSTO - Sim. Existem três tipos de TDAH. O TDAH de hiperatividade culminar, que é aquele que apresenta sintomas de desatenção, hiperatividade e impusividade. Existe o TDAH com predomínio de desatenção, no qual podem existir alguns poucos sintomas de hiperatividade, mas o predomínio é do quadro de desatenção. Temos ainda o TDAH com predomínio de hiperatividade, no qual, ao contrário, podem existir alguns sintomas de desatenção, mas o predomínio do quadro é de hiperatividade e impusividade.

ABDA - Como o TDAH com predomínio de desatenção pode ser identificado?

LA - Em primeiro lugar é importante a noção clara de que o TDAH possui duas dimensões de sintoma. Uma dimensão de desatenção e uma dimensão de hiperatividade e impusividade. O que caracteriza a dimensão de desatenção é a identificação, por exemplo, da dificuldade de prestar atenção a detalhes ou errar por descuido. Vemos isso normalmente em crianças que nos exercícios de matemática que têm duas ou três contas de somar e uma de subtrair e ela não percebe e soma as quatro equações por não perceber que uma delas era uma subtração. Esse tipo de erro causado por não prestar atenção a detalhes é importante.

ABDA - Mas esse tipo de comportamento não é normal?

LA - Uma coisa importante para dizer sobre o tema é que desatenção é uma variável dimensional na população. Não existe o grupo dos desatentos e o dos completamente atentos. Desatenção, assim como altura e pressão, se distribuem na população. Algumas são mais atentas, outras menos, outras bastante desatentas, mas o que as diferenciam daquelas que possuem o transtorno é que os sintomas são bastante graves, freqüentes e causam prejuízos no funcionamento do indivíduo. Além disso, nessa dimensão de desatenção acontecem esquecimentos de compromissos, trabalhos, provas, são pessoas muito desorganizadas, não conseguem manter a atenção sequer numa conversa.

ABDA - E o TDAH com predomínio de hiperatividade e impusividade, como se caracteriza?

LA - Nesse caso, os sintomas em crianças, adolescentes e adultos, principalmente crianças e adolescentes muito inquietos. Quando sentam em uma cadeira para fazer coisas como almoçar, jantar ou escrever, eles ficam mexendo com as mãos e com os pés, ficam sempre se levantando em sala de aula. São crianças que normalmente falam alto em demasia, não conseguem esperar alguém terminar de ouvir a pergunta, tem dificuldade de esperar a sua vez, estão constantemente se metendo nas conversas e por aí vai.

ABDA - Essa descrição da doença faz mais uma vez ela parecer comum e acabar passando despercebida dos pais. Caso o transtorno não seja tratado na infância, que conseqüências poderá trazer para o indivíduo?

LA - Esse é um aspecto extremamente importante, porque alguns desses sintomas, claro que num grau mais leve, estão presentes em grande parte da população. Por isso muitas crianças são rotuladas como preguiçosas, burras ou mal criadas, mas na verdade elas têm um comportamento que é biologicamente determinado e aí nós podemos entrar na questão de maturação cerebral, e das diferenças em áreas cerebrais. É claramente demonstrado que essas crianças têm um amadurecimento de determinadas áreas cerebrais que é diferentes das crianças que não possuem déficit de atenção.

ABDA - Essas características referem-se às crianças que possuem desatenção e hiperatividade?

LA - Sim. No caso das crianças que possuem desatenção e hiperatividade há uma tendência a ter alterações em córtex pré-frontal. Mas elas tendem a ter alterações também na região parental posterior e algumas das conexões dessas duas regiões. Então o amadurecimento dessas duas regiões se dá de forma diferente do que se dá nas crianças sem déficit de atenção e hiperatividade.

ABDA - E o que determina esse amadurecimento diferenciado?

LA - Provavelmente existe uma história familiar que faz com que elas tenham uma predisposição ou uma vulnerabilidade genética ao transtorno que faz com que essas determinações nas áreas não funcionem como em outras crianças.

ABDA - E que conseqüências terão as crianças que não forem tratadas?

LA - Como elas têm áreas cerebrais que são potencialmente diferentes daquelas que não sofrem com déficit de atenção, quando crescerem elas estarão mais sujeitas a não se desenvolverem. Por isso, o índice de repetência escolar, infrações escolares (expulsão ou suspensão) é significativamente maior nessas crianças. Existem vários trabalhos mostrando que acidentes em casa e fraturas são mais comuns nessas crianças que nas que não possuem o distúrbio. Acidentes de automóveis em adultos com déficit de atenção e hiperatividade pela impusividade são mais freqüentes do que em controles normais. O grau de satisfação normal e nas relações interpessoais também são menores em indivíduos portadores que em controles normais.

ABDA - Voltando à questão genética a que o senhor se referiu antes, quer dizer que o TDAH pode ser prevenido ou pelo menos tratado antes que se desenvolva?

LA - Não. Isso quer dizer que tendo um retrospecto de uma família com déficit de atenção, temos mais chances da criança ter o distúrbio. Existe uma predisposição clara e genética de se desenvolver o transtorno. O que podemos dizer é que se a pessoa já vem de famílias em que o déficit de atenção é mais freqüente, e é importante ter o cuidado com variáveis ambientais, possam servir de gatilho para quem tenha predisposição.

ABDA - Então o TDAH não pode ser prevenido?

LA - Não. Ele não pode ser prevenido. Talvez em alguns anos com a genética que nos deixe mais clara quais os gens que são responsáveis pelo distúrbio, talvez possamos nos encaminhar para lá.

ABDA - Nesse momento, de que tratamento dispomos para tratar a doença?

LA - Ele é baseado no uso de medicação, que controla ou melhora o funcionamento de determinadas áreas cerebrais e que não estão funcionando de forma adequada. Esse tratamento é associado a duas intervenções psicossociais que são a educação do paciente e da família sobre o transtorno e orientação da escola para reconhecimento e manejo da criança hiperativa no ambiente escolar. Ao mesmo tempo fazemos uma intervenção político-comportamental com a criança.

ABDA - E como a doença se comporta nos adultos? É possível que a doença só se desenvolva nessa fase da vida?

LA - Não. Não existe TDAH que comece na fase adulta. Esse é um transtorno de desenvolvimento que está associado ao amadurecimento cerebral de determinadas regiões do cérebro, o diagnóstico no indivíduo adulto só poderá acontecer se ele sofreu o transtorno na infância. A doença começa na infância e, se não for diagnosticada, se manterá na fase adulta. Na verdade, grande parte dos adultos mantém o diagnóstico.

ABDA - E quais são as características do TDAH na idade adulta?

LA - Nesses indivíduos é possível identificar uma diminuição da hiperatividade. O que resta no adulto são os sintomas atencionais. A dificuldade de manter o foco de atenção em tarefas de baixa ou média motivação. Os adultos, quando têm uma tarefa considerada mais chata, já possuem uma dificuldade de se manter focados. Mas também existe uma impusividade cognitiva, ou seja, o agir sem pensar, tomar decisões sem pensar.

ABDA - Quer dizer que mesmo tratando não existe cura para o transtorno?

LA - Se forem tomadas cem crianças na idade escolar, entre 7 e 11 anos, e acompanhar elas até os 15 anos, pelo menos 70% a 80% delas vão manter o diagnóstico pelo resto da sua vida. Se ela for acompanhada até a idade adulta, as estimativas mais conservadoras vão te dizer que 50% apresentam prejuízo marcado no seu desenvolvimento. Então existe um percentual já que isso está relacionado à maturidade do sistema nervoso e cerebral. Esse percentual tem uma maturação e uma melhora dos sintomas a ponto de causar prejuízos.

ABDA - Voltando às conseqüências, o mapeamento do cérebro já mostrou que é na infância que o indivíduo aprende a ler, a fazer contas, a se relacionar e conhecer o mundo e, que na adolescência, o cérebro pega todas essas informações que estavam desordenadas e as colocam em uma espécie de catálogo, reorganizando-as para serem utilizadas pelo resto da vida. A criança que não conseguia assimilar o mundo, processar e guardar essas informações não terá uma lacuna muito grande na vida?

LA - Perfeitamente. Essa é uma questão extremamente importante. A criança que apresenta um distúrbio de atenção importante vai ter o desenvolvimento comprometido quando chegar a idade adulta. Acontece que algumas começam a tratar o déficit de atenção e tem uma melhora. Depois que param a aprendizagem é comprometida. E por que isso acontece? Porque toda aquela lacuna de aprendizagem que ficou para trás não vai melhorar. Tem coisas que ela não adquiriu durante o desenvolvimento que precisará ser resgatado, principalmente na parte psicopedagógica.

ABDA - A revista Veja desta semana faz uma referência ao TDAH e afirma que novos exames podem diagnosticar a doença ainda no início. Como isso acontece?

LA - A reportagem da revista Veja está equivocada. Na verdade, os exames de neuroimagem a que eles se referem tendem a mostrar que o cérebro das crianças não funcionam de forma idêntica com crianças que possuem déficit de atenção e hiperatividade. Mas não existe nenhuma evidência no momento que garanta que os exames de neuroimagem possam diagnosticar a hiperatividade. Isso está muito claro, inclusive essa é a posição da Associação Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência e do Comitê para Assuntos Científicos da Associação Médica Norte-Americana. Os exames de neuroimagem são ferramentas úteis na pesquisa das funções cerebrais de déficit de atenção e hiperatividade, mas não são suficientemente definidos para dar dados definitivos.

ABDA - O senhor quer dizer que o cérebro das crianças não possuem uma ordem das funções cerebrais definida como os adultos e jovens?

LA - Determinadas áreas não funcionam da mesma maneira em crianças com déficit de atenção e hiperatividade. Nesses indivíduos, o cérebro tem um desenvolvimento mais imaturo de quem não possui a doença.

ABDA - E como o TDAH deixou de ser um comportamento de crianças mal educadas ou preguiçosas para se transformar em uma patologia?

LA - A primeira menção que a literatura médica faz ao transtorno data de 1852. Foi descoberta por um médico alemão Hofman. E a primeira publicação em uma revista científica aconteceu em 1902.

ABDA - Já existe alguma medicação para regular essa disfunção que é encontrada nos indivíduos que sofrem de TDAH?

LA - Existe uma certa concomitância entre quem tem déficit de atenção e hiperatividade que sabe-se que o uso da medicação tende a diminuir esse comportamento.

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