| A existência da forma adulta
do TDAH foi oficialmente reconhecida apenas em 1980 pela Associação
Psiquiátrica Americana. Desde então inúmeros
estudos têm demonstrado a presença do TDAH em adultos.
Passou-se muito tempo até que ela fosse amplamente divulgada
no meio médico e ainda hoje, observa-se que este diagnóstico
é apenas raramente realizado, persistindo o estereótipo
equivocado de TDAH: um transtorno acometendo meninos hiperativos
que têm mau desempenho escolar. O TDAH também ocorre
em meninas, também existe sem hiperatividade e nem sempre
se associa a mau desempenho escolar.
Muitos médicos desconhecem a existência do TDAH em
adultos e quando são procurados por estes pacientes, tendem
a tratá-los como se tivessem outros problemas (de personalidade,
por exemplo). Quando existe realmente um outro problema associado
(depressão, ansiedade ou drogas), o médico só
diagnostica este último e “deixa passar” o TDAH.
Atualmente acredita-se que mais de 50% das crianças com TDAH
ingressarão na vida adulta com alguns dos sintomas (tanto
de desatenção quanto de hiperatividade-impulsividade)
porém em menor número do que apresentavam quando eram
crianças ou adolescentes.
Em muitos casos os sintomas de TDAH se associarão a várias
dificuldades nas vidas social, familiar e profissional, necessitando
tratamento. Já em outros indivíduos podem existir
sintomas mas que não trazem problemas significativos em suas
vidas. Estes casos não necessitam tratamento, é claro.
É sempre importante determinar se os sintomas de TDAH são
os responsáveis pelos problemas que o indivíduo apresenta
(ele pode ter vários problemas que não são
relacionados ao TDAH). Existem ainda casos em que os sintomas melhoraram
muito e quase desapareceram, mas os problemas que eles causaram
ao longo de toda a vida ainda estão presentes. Estes casos
também merecem tratamento.
Para se fazer o diagnóstico de TDAH em adultos é obrigatório
demonstrar que o transtorno esteve presente desde criança.
Isto pode ser difícil em algumas situações,
porque o indivíduo pode não se lembrar de sua infância
e também os pais podem ser falecidos ou estar bastante idosos
para relatar ao médico. Mas em geral o indivíduo lembra
de um apelido (tal como “bicho carpinteiro”, etc.) que
denuncia os sintomas de hiperatividade-impulsividade e lembra de
ser muito “avoado”, com queixas freqüentes de professores
e pais.
Os sintomas listados na DSM-IV são os mesmos para crianças,
adolescentes e adultos. Em geral adultos têm menos sintomas
embora tenham tido a quantidade necessária para o diagnóstico
“oficial” quando eram mais jovens (veja em Como Diagnosticar).
Ou seja: os adultos com TDAH sempre foram desatentos, desde pequenos,
bem como inquietos e impulsivos.
Os adultos com TDAH costumam ter dificuldade de organizar e planejar
suas atividades do dia a dia. Por exemplo, pode ser difícil
para uma pessoa com TDAH determinar o que é mais importante
dentre muitas coisas que tem para fazer, escolher o que vai fazer
primeiro e o que pode deixar para depois.
Em conseqüência disso quem TDAH fica muito estressado
quando se vê sobrecarregado (e é muito comum que se
sobrecarregue com freqüência, uma vez que assume vários
compromissos diferentes), pois não sabe por onde começar
e tem medo de não conseguir dar conta de tudo. Os indivíduos
com TDAH acabam deixando trabalhos pela metade, interrompem no meio
o que estão fazendo e começam outra coisa, só
voltando ao trabalho anterior bem mais tarde do que o pretendido
ou então se esquecendo dele.
Assim, o portador de TDAH fica com dificuldade para realizar sozinho
suas tarefas, principalmente quando são muitas, e o tempo
todo precisa ser lembrado pelos outros sobre o que tem para fazer.
Isso tudo pode causar problemas na escola, no trabalho ou nos relacionamentos
com outras pessoas.
O tratamento também é feito com medicamentos e com
psicoterapia, em alguns casos (veja a seção Tratamento).
Como a presença de outros transtornos - tais como a ansiedade
e a depressão - é bastante comum (acredita-se que
em mais da metade dos casos) freqüentemente são empregados
outros medicamentos além daquele necessário para tratar
o TDAH.
Veja a seguir alguns depoimentos de adultos
portadores de TDAH
O homem
que enrolava
Eu sempre fui assim, sabe? Desde pequeno, só que agora minha
vida mudou, as coisas são diferentes quando você é
adulto. Tem o trabalho, as outras pessoas que dependem de você
e o que você faz. Mas sempre fui um cara que estudava na véspera
e acabava passando. Dava uma "enrolada" aqui, outra ali
e tudo se ajeitava. Ainda achavam que eu era ótimo aluno.
Só que agora, na faculdade, não tem como "enrolar",
porque a quantidade de material para estudar é absurda e
também muito complexa. Leu, leu; não leu, não
consegue "enrolar". Pelo menos a média dos professores.
Acontece que acabo me sentindo burro, uma verdadeira fraude, porque
consegui chegar até aqui "enrolando" todo mundo
sem nunca ter estudado a fundo e me aprofundado nas coisas que deveria.
As pessoas acham que sou pedante quando digo que nunca estudei direito,
mas é a pura verdade. Estudar, mesmo, só conseguia
quando era em grupo. Aí eu conseguia ficar mais tempo concentrado
e decorar a matéria. Sozinho, nunca estudava muito tempo.
Levantava, ia fazer outra coisa, beber água, ligar o rádio.
Ou então passava de uma matéria para a outra, sem
acabar a primeira. Hoje, a impressão que tenho é que
minha capacidade de aprendizado se esgotou completamente: não
consigo aprender mais nada. Leio, leio e não "fixo"
mais nada. Sempre estou voltando para as páginas anteriores
para ler de novo e ver se consigo memorizar. Quando memorizo, só
dura pouco tempo. O mais impressionante é que isto não
ocorre apenas com estudo, mas com as coisas em geral. Vale para
pessoas que conheci há algum tempo (e não me lembro,
volta-e-meia passo vexames), coisas que aconteceram (e os outros
lembram, mas eu não) e até mesmo coisas que comprei
e nem lembrava que tinha.
O médico disse que sempre fui assim e que agora que minha
vida virou uma loucura de tanto estudo e trabalho é que meu
déficit de atenção ficou tão evidente.
Segundo ele, o DDA não aumenta, mas a impressão que
eu tenho é que fiquei muito pior do que era antes.
A mulher que não fazia
as coisas
Você acredita que alguém tenha 35 coisas para fazer
num dia? Pois é exatamente isto que eu tenho para fazer na
data de hoje, está numerado na minha agenda eletrônica.
E sabe por quê? Simplesmente vou repassando coisas que não
fiz (e deveria ter feito) para os dias seguintes e a lista vai aumentando.
O mais absurdo é que eu não fiz metade do que tinha
que ter feito porque fiquei em casa, despreocupada, descansando,
"na boa". Ao contrário, fiz um monte de coisas
e ainda inventei outras tantas para fazer. Resultado: cada dia que
passa me sinto mais estressada e cheia de coisas para fazer e acho
que não vou dar conta, mesmo. Não tem jeito de me
organizar ou escolher apenas o que é importante. Faço
coisas menos importantes na frente (ou no meio, o que é mais
comum) de coisas importantes que deveria fazer.
E não tem jeito. Já tentei me organizar, usar uma
agenda como uma pessoa normal. Eu anoto e depois não consulto.
Ou então anoto e nunca acho a anotação que
queria. Procuro algo que eu tenho a absoluta certeza que anotei
- o número de um documento, por exemplo - e não lembro
sequer de que período foi feita a anotação
(não lembro nem da época do fato) e tenho que procurar
dia por dia, por meses a fio. Isto quando eu não "olho
por cima", sem realmente ler cada coisa.
Esta lista atual mesmo provavelmente não corresponde à
realidade. Tem ítens que já estavam há tanto
tempo que eu deletei e não coloquei mais para os dias seguintes.
Outros importantíssimos (acabei de lembrar de um neste exato
momento que estou falando com o Sr.) nem estão listados.
Esta história de agenda e lista de coisas a fazer é
recente; decidi isto porque sou muito desorganizada. Só para
se ter uma idéia, tenho que despejar um inquilino que não
paga o IPTU. Pois bem: não sei onde está o contrato,
não acho os carnês anteriores do imposto e meu advogado
diz que não pode me ajudar se eu não encontrar os
documentos. E os meu clientes ainda têm uma enorme confiança
em mim e no meu trabalho, me acham super-competente e organizada
! Como, eu não sei...
Achei o que não procurava!
Tenho 36 anos, separado, cinco filhos uma neta e estou agora aqui
na frente do meu PC com os olhos cheios d'água porque acabei
de ler um depoimento chamado...(tive que voltar a página
para ler novamente)... O HOMEM QUE ENROLAVA. Lendo esse texto vi
minha vida passar na minha mente, praticamente 80% do que está
escrito já se passou na minha vida e a razão desta
minha emoção é saber que isso, que me acompanha
desde garoto e já me prejudicou bastante, tem cura, tem controle,
tem parâmetros para se identificar em que grau se encontra.
Não imaginam como estou contente em ter aberto, novamente,
ontem, a revista EXAME e ter encontrado uma matéria fantástica
sobre o DDA. Já são 18.05 hs de quinta-feira e preciso
ir agora, mas garanto que estou indo confiante (e emocionado) que
minha vida pode melhorar - ou melhor, vai melhorar. Amanhã
mesmo vou ligar nestes números que encontrei aqui e procurar
ajuda, logo que puder vou dar meu depoimento do que é minha
vida e o que já passei, e quem sabe, mais tarde, dar outro
contando os resultados. Estou muito feliz, obrigado a todos que
estão engajados neste trabalho. Obrigado.
A mulher distraída
Lendo a matéria da revista EXAME e alguns dos depoimentos
deste site, me reconheci em muitos deles: sou distraída (meu
namorado diz que não posso ter nada caro porque perco tudo...),
nunca consigo me fixar por muito tempo em conversas, estudo ou aulas,
sempre me pego "viajando" quando mais queria prestar atenção
(embora não tenha dificuldades de concentração
em coisas bobas, como literatura "fácil" ou filmes),
me distraio até fazendo sexo!
Não aguento mais sonhar acordada, eu sofro por não
estar "fixada" no que preciso...
O Eterno Insatisfeito
Das minhas lembranças da infância, existem três
que me acompanham sempre. Na verdade, a primeira não pode
ser uma lembrança, segundo minha ex-psiquiatra, pois isso
é impossível. Mas continuo a afirmar: é uma
lembrança! Desde minha mais tenra idade, isso quer dizer,
logo que nasci, há como que um vulcão dentro de mim
querendo explodir. Lembro de estar no berço e sentir uma
extrema angústia, como se não deveria estar ali, como
que se quisesse voar, me libertar, fugir. Era muito angustiante
estar ali preso, sem pode falar ou caminhar. Estranho lembrar disso,
mas eu lembro!!! A segunda é sobre o maior prazer da minha
infância e que me proporcionava tamanha alegria que nunca
mais senti igual: minhas brincadeiras ao ar livre, no mato, correndo
na rua, sem ter que prestar atenção em nada, em ninguém.
Subia em árvores e me atirava de dois, três metros
de altura sobre arbustos. Entrava nas partes de mato mais fechadas,
onde ninguém se arriscava. A terceira, é sobre minhas
dificuldades na escola e nos estudos. Dos sete aos doze anos de
idade, NUNCA estudei. Não conseguia, simplesmente. Era uma
tortura! As escolas em que estudei eram públicas e não
era exigido muito de seus alunos. Assim, nunca precisei estudar
e tirava sempre notas boas. Meus professores ficavam irritados,
pois nunca parava quieto nas aulas, conversava durante a aula e
dispersava a todos. No boletim, o de sempre: bom aluno, tira boas
notas, mas seu comportamento é muito ruim. Precisa melhorar!
Ou então: é bom aluno mas não se esforça
o suficiente! Todos diziam que eu era indisciplinado e que não
respeitava ninguém. Isso me deixava triste, pois não
podia controlar isso. Tinha fama de relaxado e pouco esforçado.
Minha mãe sempre fala que eu era um terremoto, um capeta.
Até os quatro anos, gritava e fazia o maior fiasco quando
queria alguma coisa, como subir na mesa de doces no aniversário
de algum amigo. Conta ela que meu primo, bem mais tranqüilo
que eu, ganhou uma caixa para ficar dentro brincado quando tínhamos
quatro anos (temos a mesma idade. Meu primo passava o dia dentro
da caixa brincando. Então ela resolveu fazer uma para mim.
Quando me colocou dentro, o fiasco: comecei a gritar e gritar até
que me tiraram de lá. E sempre foi assim segundo ela. Nada
me satisfazia, não ficava quieto nunca, não conseguia
brincar nem por meia hora dentro de casa ou com algum brinquedo
que tivesse ganhado. Ela (e outras pessoas mais próximas)
sempre diz: ninguém conseguia te agüentar. Sempre me
senti muito, mas muito diferente. Nada me satisfazia durante muito
tempo, tudo passava a ser um tédio com o tempo, principalmente
depois que as minhas brincadeiras na rua (correndo, pulando e escalando
sem parar) não faziam mais sentido, pois já era adolescente.
Então comecei a procurar uma resposta de forma incessante
para minha angústia, minha insatisfação. Freqüentei
diversas religiões, tentei trabalhar num escritório
(um terror, esquecia as coisas, me atrasava, levava bronca toda
semana). Lia livros de toda espécie, sempre procurando uma
explicação (nem preciso dizer que não conseguia
ler o livro inteiro). Então, até que enfim, aos 15
anos, achei o alívio que tanto procurava: nas drogas. Usei
muita, mas muita droga durante quatro anos. As minhas preferidas
eram do tipo estimulante cocaína, anfetaminas. Não
gostava de maconha e álcool. Isso durou até os dezenove
anos, quando decidi por conta própria abandonar o vício.
E consegui, graças a Deus! Eu sou do interior do RS e me
mudei para Porto Alegre há sete anos. Aqui, fiz de tudo.
Dei aulas de computação, fiz um semestre de engenharia,
um ano de jornalismo, trabalhei um ano na companhia de telefonia,
fiz um pouco de tudo. Mas nada me satisfazia. De uma hora para outra,
resolvi fazer medicina. Estudei durante oito meses de uma forma
absurda. Hoje nem acredito que pude fazer aquilo. Se ficasse acordado
por dezesseis horas num dia, estudava pelo menos doze. Mas consegui,
passei. Só que após algum tempo de entusiasmo e empolgação,
tudo voltou ao normal. Fico entediado de estudar. Demoro para fazer
as coisas que devem ser feitas. Agora estou no internato. E agora
a cobra está fumando. A exigência é grande,
não tem moleza. Os residentes nos cobram muito, preciso ficar
atento a tudo, preciso chegar na hora... E isso para mim é
um verdadeiro sacrifício sobre-humano. Vejo meus colegas
levarem numa boa e não entendo como eu me enrolo tanto, me
canso tanto. Após três horas atendendo, me sinto um
trapo, um traste de tão cansando. Bem, nesse meio tempo,
fiz sete anos de psicoterapia. Mas nada mudou em todas as tentativas
de orientação, medicação. Continuo sofrendo
esse eterno dilema de querer fazer as coisas e simplesmente não
conseguir. Por exemplo, ler um bom livro, ler periodicamente artigos
e outras coisas de medicina, sair para me divertir, conversar conseguindo
expressar as milhões de coisas que vão me passando
pela cabeça, parar de ler todas as placas de anúncio,
de trânsito e de carro quando caminho pelas ruas, usar internet
sem ter que abrir quatro, cinco, seis janelas ao mesmo tempo, organizar
meu dia seguinte, parar de sentir tédio. Mas agora estou
feliz! Encontrei pessoas muito parecidas comigo e fiz o meu diagnóstico:
déficit de atenção. Vou procurar nesta semana
o serviço do Hospital de Clínicas de Porto Alegre,
pois preciso de orientação. Estou feliz, mas ainda
assim entediado.
Menina diferente
Minha mãe conta que desde que sou pequena sabe que tenho
algo diferente... Sempre tive dificuldades de me concentrar em tudo
o que fazia. Procurei ajuda para entender porque estudava tanto
e meu rendimento era tão baixo, pois esquecia 50 por cento
do que já tinha estudado ou então me dispersava muito
na prova. Agora tenho 23 anos e ainda sofro muito com isso. Também
passei a ter depressão, a ponto de ficar boa parte do dia
deitada sem fazer nada. Quanto aos sintomas de TDAH, acho que eles
são: minha incrível capacidade de sonhar acordada
(passo muito tempo do dia assim), não conseguir cumprir metas,
respeitar horários, ter disciplina. Tento me esforçar
para ter mais organização e força de vontade,
mas não consigo. Algumas vezes acordo e quero fazer tudo
naquele dia, planejo, etc. Mas ao final do dia já estou com
preguiça e adio tudo mais uma vez. A preguiça é
um sintoma constante na minha vida... e me odeio por isso... gostaria
de ter autocontrole total de mim.
Férias terrivelmente
relaxantes
Meu marido nunca tinha percebido com tanta clareza a minha total
incapacidade de relaxar e permanecer quieta. Como ambos trabalhamos
muito e eu levo trabalho das crianças da escola para casa,
estou sempre ocupada. Nos fins-de-semana estou sempre preparando
algo ("é inadiável, desculpe querido") ou
então me ocupando dos filhos. Quando não estou me
ocupando dos filhos, estou resolvendo problemas da casa.
Pois bem, ele resolveu nos dar de presente um final de semana num
desses hotéis tipo resort, no Nordeste, que só tem
praia e mais nada para fazer. Nada, mesmo ! Logo no final do primeiro
dia eu parecia uma doida andando de um lado para outro procurando
o que fazer. Andava na praia, corria na areia, ia para a piscina,
voltava para a praia. Abria e fechava o livro. Inventava alguma
coisa o tempo todo. No segundo dia já estava querendo ir
embora. É engraçado que eu sempre fantasio situações
de relaxamento, como uma casa no campo, coisas assim. Mas descobri
que sou incapaz de suportar uma vida monótona.
Sabe de uma coisa? A tal da hiperatividade do DDA não é
apenas física, é mental também. Minha mente
não consegue ficar parada nem por um instante. Até
mesmo na fila do banco (que é um suplício, imagino
que para todo mundo que tem DDA) eu fico fazendo brincadeiras mentais
com os dizeres dos pôsters ou fantasiando situações,
"voando" como se diz. Por isso é que me ocupo o
tempo todo. Eu costumo dizer que descanso carregando pedras. Não
consigo ficar sem fazer nada. Bem, no final da viagem meu marido
tirou uma conclusão (que eu já estava cansada de saber):
nossa filha tinha a quem puxar. Ela estava em tratamento para DDA
há pouco menos de um ano.
Mas, por outro lado, é justamente esta energia toda que me
fez chegar até onde cheguei, ser considerada uma excelente
profisssional. As pessoas não me vêem como "estressada"
ou "hiperativa", apesar de ser exatamente assim que eu
me sinto.
A criança
com TDAH e a Família
A espera de um bebê é acompanhada de muita expectativa,
sonhos, fantasias, ansiedade, alegria e impaciência, enfim,
sentimentos dos mais variados e ambíguos. O tempo parece
não passar, mas um dia ele chega. O enxoval pronto, quarto
decorado, lembrancinhas, fotos, presentes e uma felicidade intensa.
Para ele: o nosso amor, nosso imensurável AMOR. No caminho
da maternidade para casa começamos a conhecer nosso bebê
real. A natureza, em sua sabedoria infinita, faz com que ele durma
bastante nos primeiros dias, afinal mamãe e papai precisam
se recompor depois de tantas emoções.
Os primeiros dias são, em geral, tranqüilos. Os dias
passam e aquela criança que parecia tranqüila, calma,
vai, pouco a pouco, mudando seu comportamento. O sono irregular,
aquelas cólicas intermináveis… e sucessivas
situações vão nos fazendo perceber que não
é fácil ser pai e mãe. Com o seu desenvolvimento
vamos encontrando dificuldades, adquirindo angústias, nos
perdendo em muitas dúvidas.
Comportamentos inadequados, sucessivos acidentes, reclamações
da escola, vão nos fazendo pensar: será que eu sei
educar meu filho? Desentendimentos, broncas, discussões e
dificuldades se tornam freqüentes em nosso relacionamento.
E na tentativa de nos ajudar, ouvimos de amigos, parentes e até
de profissionais: "Isso é coisa de criança!",
"É fase!", "Você pega muito no pé
dessa criança!", outras vezes, "É falta
de limites!!! É falta de educação!", "São
os problemas do casal que estão perturbando essa criança!".
E, assim, ouvimos as mais diversas opiniões e sugestões.
Fazemos todas as tentativas e nada parece funcionar. A fase de que
tanto nos falaram nunca passa. A cada dia aumenta o nosso desgaste.
E também o sofrimento da criança que não compreende
porque leva tanta bronca, porque não consegue, apesar do
seu esforço, agradar seus pais, seus professores e seus amigos.
Infelizmente o caminho que nos leva a achar uma solução
ainda é árduo e difícil de ser encontrado.
Começamos a perceber que algo de diferente acontece com nosso
filho ou filha. Um dia, já cansados, concluímos que
precisamos de ajuda.
Nesse momento começa uma difícil caminhada. A falta
de informação sobre o Transtorno de Déficit
de Atenção / Hiperatividade (TDAH) faz com que anos
se passem até obtermos uma avaliação adequada
e um diagnóstico seguro. Perdemos tempo, energia. Sofremos
desgastes. E, além de nós, alguém sofre muito:
a criança. Ela não entende o que há de errado,
sua auto-estima fica altamente comprometida, acumula prejuízos
emocionais, pedagógicos, familiares e sociais.
Por cada consultório que passamos, sentimos a dor de contar
mais uma vez nossa história e temos que acreditar que, desta
vez seremos compreendidos, que desta vez nos mostrarão o
caminho certo a seguir. E continuamos a questionar: o quê
acontece com meu filho?
Muitas vezes nos deparamos com diagnósticos equivocados.
Desviamos do caminho certo. Seria mais fácil e menos doloroso
se a busca fosse mais breve. A escola que poderia abreviar tanto
sofrimento, encaminhando-nos para uma avaliação com
profissional capacitado antes de tantas dificuldades se instalarem,
muitas vezes não percebe sua capacidade. Em muitos casos,
torna nossa busca mais difícil. É a falta de informação
sobre o TDAH que impede profissionais de saúde e educação
de ajudarem as crianças e famílias que precisam de
apoio.
Mas,
enfim, um dia chega o diagnóstico. Para muitos ele soa como
um drama. Para outros ele representa um alívio, a resposta
que procurávamos. Passado o susto inicial, vamos descobrir
o que temos a fazer. Conhecer o transtorno, entendê-lo, buscar
informações, trocar experiências, isso é
a solução que nos leva a uma vida mais tranqüila
e, conseqüentemente, fará de nosso filho ou filha uma
criança mais feliz. Perceber suas qualidades e dificuldades
tornará nosso relacionamento mais fácil. Entender
que ele precisa de apoio, permitir que descubra que é amado,
apesar de suas diferenças, é fundamental para mudarmos
o rumo de sua história.
A adequada integração e comunicação
entre a família, a escola e os profissionais que tratam a
criança permite reduzir intensamente os desgastes e prejuízos.
O preconceito e o medo causados pela falta de informação
vão se transformando em conquistas ao longo do tempo. Entendemos
que o tratamento e a abordagem adequados possibilitam à criança
desenvolver seu potencial gerando, a cada dia, mais confiança
e coragem para superar suas dificuldades. A família devidamente
orientada consegue, pouco a pouco, se reorganizar. E essa reestruturação
será mais fácil se percebermos que diferentes todos
somos, cada um a sua maneira. E que, de ajuda todos necessitamos,
uns mais, outros menos. E o portador de TDAH tem plena capacidade
de ser feliz e fazer quem vive a sua volta feliz também.
Christiane D'Angelo Fernandes
SP, 10/03/2003
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